domingo, 17 de abril de 2011

FARINHADA NO SÍTIO


BANDA DE PIFE


























Leio...Alguem no andar de cima fuma cachimbo ou charuto, não sei ao certo, sei apenas que o cheiro do fumo me remete... Eram os cigarros de fumo de rolo, feito em papel de seda, fumados no sítio.
As memórias gritam dentro de mim, tento me concentrar na leitura, deixa-las de lado um pouco, mas meu esforço é em vão, viajo no tempo, memórias de uma infância rural nos meses de férias.
Gostaria de colocar que não sou do Sertão, mas bem perto de nós existiam famílias com vidas muito parecidas com a de Fabiano e Sinha Vitória. Bem como cachorros com nome de tubarão e cachorras com o nome de baleias e piaba...
Sigo.... Passo dos pés de azeitona, agora vou na direção contraria à nossa casa de vovó, fujo mais outra vez, é dia de farinhada que eu sei! Não posso perder.
Estradinha estreita que chamamos caminho,  quase não passa carros por aqui.
Porteira por abrir, passo por baixo, sou pequena ainda, jardim de beneditas coloridas e cravos de defunto amarelo, mas no fundo um pé de dama da noite, muito carrapixo e vassourinha de botão.
Uma casinha de taipa com chão batido de barro, a mãe  cozinhando sempre a  mesma fava de água e sal para a família comer apenas com farinha em pratos de ágata estambocados e  colher de alumínio, que envergava ao menor esforço de tirar a comida do prato sempre fundo. Se alguém me encontra: Estou sentada na perna de Maria comendo fava de bolo.
Ao fundo o fogão de lenha com panelas de barro dentro da cozinha com paredes pretas de fumaça, sempre com uma chaleira de ferro com água fervendo, acima um cordão onde raras  vezes penduravam as tripas, pés e orelhas de porco que ficavam defumando para depois cozinhar dentro feijão, com chuchu, abóbora e quiabo e temperar com ramo de cuentro.
A sala sem móveis, apenas uma pequena mesinha no canto com imagens e quadros santos na parede  e dois ou três ganchos de rede junto as janelas, onde dormiam os meninos: Zinho, Neco, Ciço,Birro, Mané, Gedeão ou Zé Bonifácio tanto faz.
Outra salinha com um pitisqueiro de guardar louça e as portas dos  quartos, uma de cada lado, à esquerda o das filhas que podiam ser: Biata, Neta, Teo, Carminha, Tetezinha, Ceiça...
Á direita quarto do casal, podendo ser de Maria de Pedro Candeia, de Geda, de Ivo,de Venâncio, de Fulorênço...  (É assim até hoje, a mulher sempre é do marido)
No terreiro a casa de farinha , onde  a família faz farinha toda semana, pra vender na feira e  consumo.
A maindoca é descascada com uma faca bem amolada na pedra no terreiro, onde a cachorra costuma dormir em dias de calmaria. Penso ser ali um lugar fresco.
Todos participavam, tinha um gamela grande de madeira onde eles  jogavam as maindocas descascadas para serem moídas no queititu, mas só os adultos manejavam, um pequeno motor fazia ela funcionar, eu observava tudo, a alavanca, o barulho, as correias rodando, os respingos que sujavam todos por perto, a forma como empurravam as maindocas, apoiando com outra quando estava se acabando para preservar os dedos. Aqui ou ali soltava um pedaço atingindo alguém e era uma farra.
Os homens  tiravam a massa dali e jogavam no coxo grande que tinha uma trempe, a medida que os meninos rodavam o veio e maindoca era espremida  e daquela água amarelada acentava a goma da qual se faz a tapioca.
A maindoca bem espremedida vai sendo colocada no forno redondo enorme, alto, feito de tijolos e barro, grande também  era o cabo do rodo de madeira manejado com agilidade, em movimentos pra frente e pra traz e girando. Tinha sempre um alerta para as crianças não ficarem perto e serem atingidas na cabeça, porque  o pai estava  concentrado na fornada de farinha para não passar do ponto, a farinha quanto mais fina e clara melhor, a não ser que a mandioca seja amarela.
A  massa crua é chamada de massa puba, com qual se faz cuzcuz branco com coco, mingau e bolo pé de moleque. As mulheres ralavam uns cocos, e no fim da jornada aproveitavam a quentura do forno, fazendo um beiju de anjo. Eu não gostava muito, mas sempre comia, é feito de massa puba sem tirar a goma, grande redondo, recheado de coco, mas salgado.
Não gostava muito mas sempre comia, Maria fazia uma chaleira de café já adoçado e servia nas canelas de ágata estampocadas até para as crianças, era uma farra.


PS. Mais uma vez fiz questão de preservar os termos da liguagem matuta, para dar mais originalidade.




6 comentários:

Espumante disse...

Bom dia. Só para dizer que o «Fénix» já consta lá da lista da direita no Espumadamente :))

Maria do Rosario disse...

Bom dia,

Fico feliz:))

Beijinho

Anônimo disse...

Rô,

Como me emociona ler suas memórias, me transporto para nossa infância que você descreve com uma riqueza de detalhes impressionante.

PS. Gente ela fugia sempre, mamãe ficava desesperada. Vovó do alto de sua sabedoria, sempre dava um palpite certo. Mandava alguém buscar e ela chegava toda amuada. rs.

Anônimo disse...

Nota 11 esta crônica. Também vivi aqueles momentos na infância, onde o primeiro cuidado dos mais velhos era com a MANIPUEIRA, de sorte a se evitar o envenamento do gado. Ainda escuto o Zezé Tributino mexendo a farinha com o rodo no forno aquecido à entoar:
Liá, Liá, Liá,
Ela fugiu pras bananeiras
ô Liá...

Artur Justo
O Belo

Maria do Rosario disse...

Lendo inicialmente, penso ser anônimo que se emociona meu irmão Marco...
Mas a observação final tem falas de Marcelo:-)

De qualquer forma fico feliz, dividir boas lembranças é muito gratificante.

PS. Mas gostaria de saber quem foi realmente, lembre de colocar seu nome no post.

Beijo grande,

Maria do Rosario disse...

Meu querido amigo Justo (O belo):-))

Você é muito gentil, e lembrou bem a manupueira, realmente esqueci desse detalhe.
Sua identificação com minha narrativa, reafirma a veracidade na qual as vezes pense me perder.
Obrigado por seu carinho,
Um grande beijo,