terça-feira, 12 de outubro de 2010

TRAVESSURAS DE UMA MENINA LEVADA DA BRECA

Sempre que se aproximava o São João era o mesmo alvoroço, mamãe  aproveitava as poucas horas de folga para fazer nossos vestidos de festa a casa se transformava num atilié em meio as popelines estampadas, cambraia bordada e zebrinha, fustão, rendas, sianinhas, fitas, entremeio, bicos bordado, franzidos, babados,  viés, saietas e  muitas mulheres envolvidas. E eu aproveitava para fugir de casa,  para desespero todos,
O que me levada a fazer isso, curiosidade! O que me fascinava eram os preparativos dos comes e bebes da festa. Morávamos no sítio bananeira do outro lado rio, fazer aquele trajeto até a casa de Vovó Lica sozinha aos 5 anos de idade só era possível atravez de uma travessura infantil.
Ao sair de casa descia uma pequena ladeira, estreita com sulcos feitos pela força das águas da chuva,  logo adiante uns pés de mandacaru que floresciam, mas a beleza total de suas flores não era possível de  ser vista  por causa de uma enorme cerca de aveloz.
Na margem do lado de cá do rio um corredor de árvores, imensas para o meu tamanho a meu ver quase uma floresta. Ficava um pouco ali admirando as cores reproduzidas pelos raios de sol que refletindo das pequenas fendas das copas das árvores, ouvindo todos os sons ali reproduzidos. O canto dos passaros, canto das cigarras,  o zumbido que as asas dos zigue zigue e beija flor  faziam num bailado frenético, o silencioso e quase imperceptível som das águas límpidas do rio que seguia seu curso natural mas sem pressa, o som dos meus passos sobre as folhas caídas, o correr rápido de pequenos e assustados calangos, preás  algumas tanajuras e muitas saúvas que em meio ao seu trabalhos disciplinado faziam sua pequena contribuição na combinação dos sons.
Atravessava o ponte feita de um enorme tronco de madeira com o coração disparado, pé anti pé sem alcançar o corrimão, será que eu confiava no leito do rio para amortecer uma possível queda, apesar dele não ser muito raso. Por certo não, pois tinha outro objetivo naquele momento que me fazia respirar fundo enfrentar o medo e olhar para frente, focada na beleza exótica dos frutos do pé de ariticum.
Enfim travessia cumprida, meu olhar se desviava  agora para a descida de acesso a outra margem do rio, a parte mais rasa, palco de tantos de brincadeiras seguidas de risos e gritos da garotada jogando água umas nas outras, rodopiando com os braços esticados e a água ao correr entre os dedos fazendo um efeito que chamávamos de vestido de noiva.(A brincadeira era assim: Rodava falando, quando eu casar meu vestido vai ser assim, jogava aguá pra cima com as duas mãos , meu véu vai ser assim, batia bem rápido e bem forte na flor da água falando, meu buquê vai ser assim.)  Eram só inocentes brincadeiras de meninas, mas não era permitido entrar no rio sem a presença de um adulto. Por isso depois do inevitável banho, sentávamos  ao sol para nos secar, mas criança não tem muita preocupação em deixar pistas da prova do crime:  Que neste caso eram os cabelos de imbira.
Portanto sentada numa pedra enorme na beira do rio voltava a realidade e admirava a plantação de café. Logo minha atenção se desviava ao ouvir o to fraco, to  franco, to fraco das galinhas pedrex, , o gulu, gulu dos perus de roda, o cocoricó das galinhas com seus pintinho que como eram muitos faziam um piado quase ensurdecedor, mas engradado.
Um pouco mais acima a casa de farinha, o pé de manga São Pedro, a lagoa rodeada de ninhos de patos e gansos, fervilhando de peixes que saltitavam, creio eu que em busca de comida, o pé  de limão doce com frutos enormes, da família da laranja da terra da qual se faz o doce cristalizado da entrecasca e logo em frente o jardim! O jardim que surgia numa explosão de cores e formatos das mais diversas flores que se pode imaginar, exalando seus perfumes que se misturavam  a outros aromas vindos dos cortiços de mel de abelha e do polén das flores soltos ao vento por abelhas e borboletas multi coloridas, mas na grande maioria pequenas e amarelas.
Um pouco acima o pé de coité, logo atrás dois coqueiros e mais  adiante uma enorme plantação de bananeiras.
No alpendre sentado num banco azul , Vovô. Que  me parecia estar sempre lá de braços abertos esperando por mim. Agora desconfio que ele sabia exatamente a hora das minhas fugas. Porque aquele abraço queria dizer: Pronto eu estou aqui!
Engraçado como eu sempre gostei mais de estar com adultos, então vovô Zu me pegava pela mão e  agora seguíamos juntos. Atrás da casa ficava a horta da qual já falei aqui, o curral, o chiqueiro de porcos,a pedra mó de transformar milho em xerem, a casinha de torrar café que  também era usada para secar folhas de fumo, os três pés de azeitonas (brincos de viúva) dos quais além de comer os frutos, usamos as sombras na hora de pescar. O pé de pitomba, um enorme pé de cajá e finalmente a porta lateral que dava acesso ao salão. Onde tinha uma mesa enorme com dois bancos laterais inteiriço, mesa essa que vovó trouxe do Engenho Sapucaia, depois que minha  Bisavó Dona Fina morreu. Para se ter dimensão do que era ser grande em um engenho, vovó mandou cortar um metro de extremidade da mesa para caber no salão e que após a chegada bisnetos, passou a ser a mesa da sala de jantar e ainda dispunha de mais de vinte lugares.
O salão era ao lado cozinha e onde eram feitas as comidas das grandes festa e o São João era uma delas, ainda do lado de fora me assusto com o barulho de um feixe de pés de milho que Zefão jogou. Vovô tirava as espigas, selecionava, fazias as copas e entregava para a mulherada preparar as pamonhas, a canjica que aqui se chama curau e o milho cozido.
Vovó se ocupava de fazer as massas das broas, biscoitos de nata, amanteigados, sequilhos e tarecos, mas atribuía as mocinhas a tarefa de enrolar, cortar, assar e rechear. Mas tinha que caprichar para serem todos iguais! Em dupla com Dona Nina de Seu Osmar preparava os bolos: De milho, pé de moleque, massa puba. As brevidades e queijadinhas.  As compotas de goiaba, caju, os doces de corte, o tradicional doce de banana de rodinha e o famoso doce de mamão verde com côco. Eram feitos com atencedência, de acordo com safra das frutas e guardados na dispensa junto os licores e queijos feitos em casa.
Isso sem falar nos assados e guisados e ensopados que tia Loló e mãe Nem ajudavam preparar, mas sempre aos olhos de vovó.
Como eu adorava! Era tudo tão mágico, ver os ingredientes se transformarem em belíssimos e deliciosos pratos. Os biscoitos e bolos eram os meus preferidos porque eram mais elaborados, decorados, aromatizados.
Interessante eu voltar no tempo e descobrir de onde veio minha paixão pela culinária.

PS. Fiz questão de conservar os termos Nordestinos para dar mais originalidade. Como dizia impolgado meu amigo e escritor Alagoano Artur Justo. - Menina, escreva suas memórias do jeito que aqui se fala! Isso é resgate da Cultura Regional Nordestina.

7 comentários:

Mariana Lyra disse...

Ahhh... jah acabou?? deu vontade de continuar lendo!!! conta mais!! rs

beijosssssss

Noemi disse...

Nossa! parece que voltei no tempo. Conseguiu descrever tudo como era exatamente. Senti até os perfurmes das flores e os cheiros das comidas, e que comidas! Como era encantado aquele lugar. Digo que era o nosso "Sitio do pica-pau amarelo" .

Mariana Lyra disse...

Eu nao sei se jah fui lah... nao lembro! mas depois de toda essa descricao eu fiquei com vontade de conhecer!!! Quero ouvir mais estorias... vc podia contar algumas tbm hein tia noi? rs

Anônimo disse...

CONCORDO COM NOEMI, FOI UMA VIAGEM NO TEMPO, NÃO SEI COMO PARTICIPA, ALÉM DOS COMENTÁRIOS, TERIA MAIS ALGUMAS DOCES LEMBRANÇAS PARA COMPLEMENTAR.

ADOREI!!!

UM BEIJÃOOOOOOOO

SOCORRINHO

Mariana Lyra disse...

Faz um texte e manda pra mainha tia! ai ela posta aqui :) estou curiosa pra saber as lembrancas de vcs :)

Maria do Rosario disse...

(...)Então lebremos fênix
Que era encantada
E que das cinzas do nada
Veio resurgir após...

Acabei de ver o blog. Como você sabe, não é exatamente a minha praia, mas
vibrei com a sua viatalidade, competência, superação e entusiasmo no que faz.
Suas histórias são latentes contos, e nesse terreno achoque que você tem um
grande potencial a ser explorado. Parabens pela iniciativa e muito sucesso.
Fiquei muito lisojeado com o seu telefonema, espero nos ver a qualquer hora
aqui ou aí em Sampa (continuo aceso).
Lembro que sempre apostei em você, nessa sua capacidade de resurgir, tal qual fênix.
Abraço.
Justo (O Belo)

Maria do Rosario disse...

Lála!

Ficou muito real, ficamos todos muito emocionado.

Beijos,

Fátima