domingo, 18 de março de 2012

DIA DE SÃO JOSÉ


Roçado de milho e feijão

Para colher dia de Santo Antônio, o plantio é feito dia de São José que é comemorado exatamente no último dia do verão. Fazendo-se uma festa com procissão para rezando pedir chuva afim de ter uma boa colheita.
Lembro do plantio de milho, os homens fazendo as covas com a enxada e as mulheres jogando três sementes de milho e três de feijão em cada uma e fechando com o pé.
Lembro também da colheita o milho seco e das meninas apanhando a fava que enrramava nos pés de milho que eram quebrados, assim secavam e sustentavam as ramas.
Com mãos calejadas do cabo da enxada, do rodo de mexer farinha, o pai debulhava o milho seco com muita habilidade, com duas espigas, uma em cada mão fazendo movimentos contrários e os grãos iam caindo no balaio, enquanto um dos meninos derramavam o milho no buraco e o outro girava o veio da pedra mó para quebrar o milho e fazer xerém. Os pintinhos faziam a festa, piando piu, piu, piu se movimentado e comendo xerém, amarelinhos e fofos como uma bolinha de pluma.
O milho era escolhido e as espigas maiores eram descascadas mas não se tirava a palha, para serem amarradas e penduradas no arame do alpendre.
A noite era obrigação das mulheres deixarem algumas espigas de molho em água quente, para ralar pela manhã e fazer cuscuz na panela de barro. Sabe como? - Coloca a água na panela, um pano de prato úmido na boca onde bota o fubá, prende o pano na boca da panela com um prato, tampa e deixa cozinhar no vapor. Cuscuz se come com leite, ovos fritos ou queijo de qualho assado.
Outra coisa que Maria fazia e eu adorava era pipoca, os milhos que não pipocavam ela assava e depois socava no pilão com um pouco de açúcar, chamada de fuba. Parece paçoca.

O feijão era arrancado, tirava as folhas, amarrava pelas raízes e pendurava num arame do outro alpendre pra secar, depois de dias, despinicava as vagens e as colocavam numa lona também, para serem batidas com varas para abrir, as mulheres enchiam as cabaças com feijões, jogavam em arupembas enormes e cessavam, fazendo movimentos pra frente e jogando os feijões pra cima, ao caírem de volta o vento leva as palhas, ficando quase limpo, mas elas catavam antes ensacar.

O café era plantado na beira do rio, colhido e posto para secar numa lona no terreiro de traz, torrado num tacho enorme e socado no pilão grande de madeira, com cintura fina e duas bocas, as mulheres batiam com a mão de pilão pesada e aos poucos e iam tirando uma quenga de coco e jogando na peneira de ferro, com a malha bem fina. Refazendo a operação, o barulho ritmado doía nos ouvidos. Mas era abafado pelas cantigas e euforia por ter fartura e de comer por uns dias...

Existiam porcos no chiqueiro, uns poucos bodes e cabras e algumas galinhas. Era o que se chama hoje de agricultura de sobresistência

A realidade era ter apenas uma roupa nágua e no couro, calça de mescla e camisa de volto mundo, vestido de chita e anágua de murin, ter cabeção de dormir e cabeção de tomar banho de cuia ou no rio, ter sempre o cabelo grande e preso num cocó, cama de varas com colchões de capim, guardar a roupa num baú de couro, armazenar água no pote de barro, coberto com um fundo de lata e beber água no pote com uma canela apenas.
Só comer carne verde quando se matava uma réis, lavar os pratos e roupa no rio, alvejar com anil e deixar quarar no sol, estender na cerca de arame farpado pra secar , carregar água na cabeça com o pote em cima da rudia de pano com o filho menor escanchado nos quartos.
Aos domingos os Pais iam ao povoado para vender seus produtos na feira, alguns eram marchantes vendendo carne na tarimba, outros vendiam farinha e feijão no mercado para com o apurado comprar querosene, sal , cominho, colorau e fumo de rolo na venda, tomar umas lapadas de cachaça, chegando à tarde em casa pé no mato, pé no caminho.

No fim do ano a feira vendia, alpercata, galocha, bota sete léguas, tamanco, chita vermelha e azul de ramagens e flores grandes além de bicos, fitas, sianinhas e entremeio, tudo para enfeitar os vestidos
Barracas que vendiam tecidos para a roupa dos homens, eles compravam os paus de pano pra fazer uma beca nova, percata xô boi, bainha de faca decorada e colorida combinando com o cinturão.
Chapéu de couro novo para a festa de Natal.
Mas era preciso caminhar quilômetros à pé de percada nova, queimando os pé, vestido numa calça de linho e camisa de riscado abotoada o colarinho,e as mulheres de vestido com saia de pala e franzida de três panos e anáguas, flor no cabelos, ruge e batom vermelho, brinco na orelha e salto alto, difícil de andar, mas todas as matutas usavam, desequilibradas seguiam até o povoado de Campo Novo pegar o trem de carga e ir a festas  na Usina Serra Grande.
Era normal ficar assustado com apito dos bueiros da usina e a luz vinda dos geradores e que enfeitavam e clareavam as ruas em lâmpadas enfileiradas e gambiarras serviam de admiração era porque eles só conheciam luz de candeeiro à querosene de pavio de algodão.
O negócio era ir primeiro pras barracas com musica e luzes multi coloridas, comer maçã do amor e cachorro quente, feito de carne moída e verduras. De barriga cheia era hora de comprar enfeites, espelhos pequeno oval, batom, diadema, maria chiquinha, presilha e um transilim de ouro pra pendurar no pescoço, junto com rosário azul e branco que todas as mulheres usavam.
A essa altura, já estavam com os pés cheios de calo, as roupas novas apertando e espinhando, mas ninguém ligava, porque tinha uma maquina de fazer algodão doce, outra de pipoca doce e colorida, meninos vendendo amendoim torrado dentro de cones de papel. Todos comiam de tudo e depois ficavam enjoados de rodar nas patinhas do parque da festa.

Um comentário:

Fernanda Prado disse...

Lindo o texto! Inspirador!
Este ano vou plantar milho e feijão e lembrarei dessas palavras!