sábado, 23 de outubro de 2010

CRIANÇAS SAPECAS

                                            

                                    
                                                 EU ERA UMA MENINA ASSIM!
                                      
Quando começei  fugir e hoje minha fuga é matinal, faço o mesmo percurso da nossa casa para casa de vovó, só que agora depois que sobrevivo ao perigo da travessia da ponte e vejo a esquerda a casa de farinha, dou a volta pelo outro lado da lagoa para chegar na escola onde mamãe é a Professora, não estou indo a escola como uma aluna faz diariamente, mesmo porque ainda não estou em idade escolar, na verdade eu estou mesmo é tentando me proteger em baixo das asas de minha mãe como faço quase todos os dias, porque as vezes abria o berreiro e ela já me levava junto. Eu pequenina mais muito falante e simpática arrumava logo alguém que toma-se conta de mim enquanto a aula proceguia, aproveitando fato de está sempre na escola me interesso por aprender o be a ba, é, era assim que se soletrava na cartilha do ABC.
Quando mamãe se formou,  tendo como Professora sua irmã,  tia Quitéria (Teté) assumiu a cadeira de professora da Escola Municipal Coronel Feliciano Lyra. Construída por ele no sítio Bananeira. Então lá era seu trabalho em tempo integral.
A escola só tinha um cómodo, as séries eram separadas pelas fileiras de bancas que acomodavam dois alunos, assim juntos os alunos da Cartilha do ABC, Pré-Primário, e da primeira a quarta séries assistiam as aulas ao mesmo tempo e também tinha aulas de Catecismo,  exigência de vovó que por ser muito religiosa e ter em casa um santuário que ficava num comodo da casa reservado para as orações, onde além dos terços rezados todas as noites, era marco de início de todas as novenas que depois seguiam em procissão e em dias festivos Padres celebravram  missas, casavam, batizavam e uma vez por ano davam aos principiantes a primeira comunhão.
No final do ano o Prefeito e outras autoridades vinha para a festa de formatura da escola, evento celebrado com muito orgulho por vovó que preparava um verdadeiro banquete.
Os alunos em fila do menor para o maior, cantavam o Hino Nacional  e a  Bandeira do Brasil era hasteada. Vovó fazia questão  que fossem cumpridas todas as formalidades, após as festas a Bandeira do Brasil era devidamente dobrada e guardada a sete chaves, como uma relíquia. Quando ficava muito velha ela mandava levar para o quartel do tiro de Guerra para ensinarar. Se hoje estivesse viva, certamente diria: Ninguem mais respeita a Bandeira do Brasil.
E eu devido ao fato de já saber ler e escrever, fiz exame final naquele ano e recebi meu diploma. ( Tem uma foto na casa de mamãe, com a turma de formandos naquele ano, e eu na frente, chorando, uniformizada com uma saia plissada azul marinho, uma blusa branca com o emblema da escola no bolso esquerdo e o diploma todo desenrolado nas mãos, eu chorava porque o canudo de papel estava  em branco, amarrado num laço de fita, e eu tinha a curiosidade de saber o que era um diploma, algo deveria estar escrito ali , eu acabara de aprender a ler!!).
Na época das férias, quase todos os primos vinham para sítio bananeira, chegavam antes do dia de Santo António, 12 de Junho, quando se acendia a primeira fogueira ainda um pouco tímida. 24 de Junho dia de São João, todos vestidos com suas melhores roupas (Essa história de que matuto se traveste no São João é mito), a fogueira enorme, o terreiro enfeitado, as comidas típicas dispostas nas mesas, o sanfoneiro tocando, nós soltando fogos de artificio, assando milho, dançando.Um deleite para todos, mas logo chegava o dia 28 Junho dia de São Pedro dia do encerramento dos festejos.
Acabada a festança a criançada iniciavam suas aventuras infantis, era uma época divertida mas ao mesmo tempo difícil para mim..Eu era chorona, gorda e manhosa e pelo que me falam hoje devo ter nascido com intolerância a lactose porque sempre passava mal depois de comer e sempre estava com dor de barriga, razão pela qual fazia de mim uma criança chata e como estava sempre indisposta, caia com facilidade, não era ágil para subir nas árvores e se subisse não acertava descer, não corria rápido atrapalhando assim as brincadeiras,  não era bem vinda nas traquinagens das crianças maiores. É claro que logo ganhei o apelido de rata cabeluda. E é claro que eu chorava e mais claro ainda que o apelido pegou.
Naturalmente eu preferia a companhia dos adultos e só participava das brincadeiras assistidas, como nas noites de lua cheia, após o rezar o terço, os adultos sentavam no alpendre tendo um mundo de estrelas no céu e por causa da lua o terreiro ficava um pouco claro, e nós, brincávamos  de seu Rei mandou dizer, passar o anel e brincadeira de roda, nossa! Eram tantas as cantigas  de roda, ainda lembro de quase todas  que com suas letras compridas e gestuais eram quase teatrais. Como por exemplo:
Fui à  Espanha buscar meu, Pai Francisco entrou na roda, Vim de Tororó beber água e não achei, O cravo brigou com a rosa, Samba Lelê tá doente e até atirei o pau no gato. Formávamos uma roda enorme, porque além de nós e nossas primas, vinham as meninas e Ivo ( Margarida, Netinha e Tel). As meninas de Pedro Candeia...As meninas de Maria de Geda que já não eram tão meninas assim, mas estavam sempre conosco, meio que cuidando mas brincando também.
 Não posso deixar de falar de Birro, ele foi adotado por vovó, é especial, como falamos hoje. Então ele também queria brincar e adorava correr atraz das meninas na hora do pega pega ou brincadeira de bobo, era mestre em botar uns apelidos nada a ver como: Rabo de imbira, pé de espeto, galo do mar, galinha do mar, fogo corredor e assim por diante. Detalhe! Ele era meu padrinho. Como não gostava de tomar banho mamãe disse que se ele ficasse sempre cheiroso poderia ser meu padrinho, ele ficou tão feliz, mas até hoje eu tenho que levar ou mandar caixas de sabonete pra ele.
Depois que acabavam as brincadeiras, íamos todos para o quarto de Mãe Nem para ouvir histórias de Trancoso, ela tinha um repertório próprio e enorme,  atendia a todos os pedidos. Seu nome era Ilodí e tio Ulino, (Severino) também adotado só que na mesma época que tio João nasceu, por isso a tomou  como mãe e não conseguindo falar seu nome à chama de Mãe Nem. E tio João por também não conseguir falar Severino o chamava de Ulino.
Era uma prática muito comum naquela época o irmão mais novo apelidar o seguinte, hoje os apelidos são apenas as duas primeiras letras do nome, eu por exemplo hoje sou Rô ou melhor Tia Rô, porque antes eu era Lala. Muitas pessoas la em Alagoas ainda hoje me chamam assim.
Era Mãe Nem também que durante as manhãs nos acompanhava nas pescarias, cada neto tinha sua vara de pescar e nas férias a lagoas ficava repleta de pescadores. Eu não gostava, tinha nojo das minhocas e medo dos peixes, os meninos sabiam e quando algum fisgava sua isca, eles viram em minha direção aquele peixes se contorcendo freneticamente para se soltar do anzol e eu corria chorando, arrumando assim um pretexto para sair dali, preferindo cuidar do jardim com Vovó.
Depois do almoço os adultos faziam a sesta e as crianças aproveitavam e fugiam para subir rio acima, numa aventura sem igual, hora a água estava mais rasa assim na altura do pescoço, hora mais funda a ponto de cobrir que tentasse tomar pé, assim hora nadando hora caminhando, seguiam rio acima, passando por nossa casa, a de Maria de Geda, e a parada final era na casa de Maria de Ivo. Chagavam todos molhados e exaustos e Mariade Ivo que era a doçura em pessoa, fazia uma merenda que geralmente era pipoca ou um beijú grosso recheiado com coco, mas salgado e assado no forno da casa de farinha por Neco ou Ivo, que por esse motivo era um beijú enorme que ela servia com café com leite e depois mandava Margarida ou Zinho nos levar de volta. Só que agora iam pelos atalhos feitos na estrada para encurtar o caminho. Vale lembrar que só passei a participar destas aventuras um pouco mais tarde, ao contrário de meu irmão Marco que apesar de ser um ano mais novo que eu ia na frente encabeçando a comitiva. Ele era de tão danado,  corajoso e ligeiro,  que ganhou logo o apelido de Gato. Ele subia no topo das árvores, passava de árvore  para outra e ainda se balançava nós galhos, se era uma árvore frutífera, ele era escalado para colher aquelas frutas que ficavam nas pontas dos galhos e que para nós que estamos de fora era mais fácil de ver, se ele caísse não se machucava devido a sua agilidade de gato. Detalhe! Marcelo o chamava de Dato e Chamava Márcio seu irmão gêmio de Dudui.
Hoje nós o chamamos de Marquinho, ele é o irmão mais prestativo, mas animado nas festas, mais dançador. Além de recitar com muita graça e originalidade umas poesias matutas, que pretendo qualquer dia postar pelo menos uma aqui, vocês vão morrer de rir.
E assim aos poucos vocês vão conhecendo minha família ( Os meninos de Armando) como falam nossos parentes,  que dão mais vida e animação nas festas de família. Característica de todo bom Nordestino.

2 comentários:

Anônimo disse...

Rô,

Que bom que colocou a foto que te mandei, achei a cara da postagem, no jardim de vovó tinha dessas flores, só em tons de amarelo.

Beijos

Anônimo disse...

Olá gostaria de saber se noestado de alagoas possui escolas internas...
obrigada...